A Garota Dinamarquesa, David Ebershoff

segunda-feira, 8 de agosto de 2016




    SinopseInspirado em uma história real, este romance inquietante, narrado com elegância e sutileza únicas, apresenta uma trama ousada que transcende os limites de sexo, gênero e localização histórica. A prosa rica e o discurso emocionado transformam esta obra numa história de amor poderosa, que marcará para sempre a vida do leitor.

    O premiado Eddie Redmayne deu vida a Lily; a moça que nasceu no corpo de Einar, talentoso pintor dinamarquês dos anos 20. Hoje o post é delicado, mas faço questão de escrevê-lo com o maior cuidado e apreço possível. Vou contar minha experiência ao ler o livro que deu origem ao delicado e polêmico filme de 2015.

    Primeiramente, é importante dizer que A Garota Dinamarquesa é uma composição autêntica e forte. Não dá pra começar a ler se você torce o nariz ao imaginar que uma mulher pode nascer em um corpo masculino ou vice-versa; é preciso estar aberto ou disposto a se abrir a uma história sobre sexualidade, preconceito, transições e sofrimentos. Caso você pense que um transexual não passa por nenhuma dessas emoções (reveja seus conceitos), nem comece sua leitura. 

   Einar é casado com Greta, uma elegantíssima artista que pinta retratos que não vendem muito. Ele, também pintor, se dedica a reproduzir paisagens de sua infância e tem seu trabalho razoavelmente conhecido no meio artístico. Um belo dia, a modelo de Greta falta e ela precisa terminar seu retrato. É quando ela pede a seu marido para que coloque as roupas da moça, dando início a uma descoberta dolorosa e muito complexa. Naquele momento, Einar percebe que sua alma feminina existe de fato. É quando os dois embarcam em uma jornada complicadíssima - sim, eles se amam!

   O amor entre Einar e Greta transcende todos os padrões com os quais estamos acostumados. Eu mesma tive muita dificuldade para entender como uma mulher pode lidar com o marido descobrindo que na verdade nasceu mulher também. O que percebi ao longo da história é que o amor retratado tem uma forma tão pura que transcende gêneros e rótulos. Quando Einar deixa de existir, Greta ama Lily de forma quase fraternal, oferecendo a ela todo o apoio, amizade e lealdade. É uma loucura pensar como isso aconteceu, especialmente há décadas atrás - se hoje o preconceito e a ignorância impera, que dirá naquela época.


   A narrativa é muito romântica e delicada, ficando um pouco pesada em alguns momentos pra mim. Contudo, tive a impressão de que isso se deu mais ao fato da minha falta de costume em ler romances com narrações mais densas do que por qualquer deslize de David Ebershoff. Os capítulos não são sempre curtos, mas são muito bem marcados e separados, trazendo mais clareza aos acontecimentos e seus cenários, já que a história se passa durante um longo período em vários lugares. A única estrela faltante nessa resenha se dá justamente por conta disso, dessa espécie de densidade que julguei em alguns momentos um pouquinho dispensável.

   Voltando a falar dos personagens, pra mim foi muito difícil separar o filme do livro. Já tive a experiência de ler algo depois de ver uma adaptação cinematográfica, mas em A Garota Dinamarquesa foi complicado não visualizar o rosto de Eddie como Einar e Lily, por exemplo. Contudo, digo com toda a certeza que isso foi um ponto positivo. A atuação impecável de Redmayne me ajudou a visualizar muito as emoções dos personagens, pois de vez em quando a descrição floreada de Ebershoff me deixava um pouquinho confusa. Me emocionei em muitos pontos, imaginando a dor que é se sentir aprisionado em um corpo que não é seu, lutar contra o mundo e contra a própria "natureza" (com aspas, por favor, com aspas!). 

   Alguns detalhes são sim divergentes do filme. Vocês podem descobrir que Lily é mulher em outros sentidos além do psicológico, por assim dizer. Não posso estragar a surpresa, mas o que posso dizer é que A Garota Dinamarquesa é uma lição maravilhosa sobre como não somos ninguém para julgar o próximo e saber de suas lutas interiores. Parece clichê, mas não dá pra explicar o quanto David Ebershoff sensibiliza sem impor, sem forçar... A própria história em si se faz reflexiva, marcante e forte. É o tipo de livro que mexe com sua visão de mundo, de sofrimento, de empatia. Gostaria de dizer que esse tipo de obra tem o poder de mexer com a mente das pessoas transfóbicas, ou simplesmente de explicar para quem não entende o que é transexualidade.

   Infelizmente, há muito escuto comentários sobre o filme que me fizeram desanimar. As pessoas dizem que Eddie Redmayne nunca mais fará um "papel de respeito", que agora só conseguem enxergá-lo como um insira aqui um termo perjorativo para homossexual. Muita gente permanece intolerante, intocável, insensível. É uma pena que não dê para plantar a sementinha da empatia e da sensibilidade em tanta gente com um livro ou um filme tão tocante, mas garanto que se você está disposto a regar uma dessas sementes dentro de você - ou fazer brotar uma, quem sabe -  A Garota Dinamarquesa é uma escolha muitíssimo interessante. 

Classificação final


  
   


1 comentários:

  1. Wol, que resenha incrível!
    Amei, estou louca para ler esse livro, louquinha!
    Ah, e além disso, amei o blog! É lindo demais!
    Virei sempre aqui.
    Não sou muito acostumada a ler livros desse gênero, mas todo o contexto e a forma como foi desenvolvida a história, segundo a resenha, é muito convidativa. Sempre interpretei assuntos polêmicos - como a sexualidade - como algo em que eu devesse ficar afastada e não saber muito a respeito. Mas depois disso? Lá se foi a minha antiga concepção. Obrigada pela resenha, ela despertou algo diferente em mim :D
    Bjs. Volto logo, logo.

    caminhodoslivros0.blogspot.com

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Criado por: Maidy Lacerda
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